Precisa-se de seniores: as vagas mais difíceis de se preencher nas startups
A escassez de profissionais qualificados em tecnologia não é um problema só das maiores empresas do país. As empresas da lista LinkedIn Top Startups 2022 também precisam disputar, entre si e com o mercado internacional, os talentos brasileiros.
Em 2021, o Brasil formou 53 mil pessoas em cursos ligados à tecnologia, mas a demanda média anual é de 159 mil profissionais. Até 2025, o déficit pode ser de até 797 mil talentos, segundo dados da Brasscom (Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação).
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Durante a pandemia de Covid-19, um acelerado processo de transformação digital em toda a indústria elevou ainda mais a demanda – que já era alta – por profissionais de tecnologia. A busca por esses talentos chegou a níveis que a oferta simplesmente não consegue acompanhar.
A disputa pode ser ainda mais acirrada entre as startups brasileiras, que, em meio a notícias de quedas nos investimentos e demissões em massa, precisam concorrer com gigantes de todo o Brasil e do exterior, que se aproveitaram da popularização do trabalho remoto para expandir as contratações.
“Mesmo com os movimentos de demissões no começo do ano em startups unicórnios, o quadro geral não mudou. Continuamos tendo muita dificuldade [para preencher vagas] especialmente na área de desenvolvimento e programação”, diz Felipe Matos, presidente da Abstartups (Associação Brasileira de Startups) e CIO da Sirius Educação, em entrevista ao LinkedIn Notícias. “A demanda subiu e a oferta, diminuiu.”
Os cargos mais procurados
O LinkedIn Notícias perguntou às quinze empresas do Top Startups 2022 quais são as vagas em tecnologia mais difíceis de fechar. As respostas foram quase unânimes: a maior demanda é por profissionais experientes, como engenheiros de software, desenvolvedores e cientistas de dados de nível pleno ou sênior.
Com base nas vagas anunciadas aqui no LinkedIn, levantamos também as posições mais procuradas pelas startups da lista no país.
Equilíbrio entre habilidades
Para a Neon, as vagas há mais tempo abertas são as de desenvolvedor back-end sênior. O principal desafio é encontrar profissionais que consigam equilibrar hard skills – a habilidade técnica necessária para desenvolver bons projetos – com as soft skills – habilidades em comunicação e colaboração, especialmente para vagas de liderança, por exemplo.
“Hoje encontramos mais facilmente profissionais que se encaixam nos extremos, o equilíbrio é mais difícil, principalmente quando falamos de resiliência e capacidade de se reinventar mediante adversidades”, respondeu a Neon.
É o mesmo desafio da Gupy – que vê mais dificuldade para preencher as funções de especialista em back-end e engenheiro de software mobile sênior – e da Voltz Motors, que acha difícil encontrar profissionais que aliem “sólida experiência técnica, de produto e de liderança” com “um bom nível de inglês” na área de infraestrutura de rede. A vaga mais difícil de preencher lá tem sido a de SRE (Site Reliability Engineer, ou Engenheiro de Confiabilidade de Site).
Equilíbrio entre hard skills e soft skills também é o mais difícil de encontrar nos processos seletivos da Me Poupe!. Por lá, a vaga com maior SLA (métrica que indica o tempo de fechamento da posição) é a de Cientista de Dados: a startup levou 49 dias para preenchê-la. “Foi-se o tempo em que o perfil ideal do profissional de tecnologia era aquele com conhecimentos puramente técnicos”, respondeu a empresa.
É na área de dados que a Buser Brasil também encontra seu gargalo. A startup de mobilidade procura um Data Manager há seis meses, mas diz que não encontra perfis que atendam a todos os requisitos de hard e soft skills – “ou seja: colocar a mão no código, mas também liderar e gerir as pessoas da equipe”, diz a empresa em nota.
A Onze, por sua vez, diz que sofre mais quando precisa “contratar profissionais com perfil de liderança, em detrimento de profissionais especialistas, que lidam com outros tipos de problemas, focando no código”.
Mas muitas vezes, mais difícil do que encontrar o melhor perfil técnico e comportamental é formar equipes diversas. “A maior dificuldade que encontramos é tornar o time mais diverso, principalmente aumentando o número de mulheres atuando em tech”, respondeu a Onze.
Problema semelhante é o da Alice: “dentre os perfis que buscamos, os de liderança, com mais experiência, são os perfis mais desafiadores, e em especial em produto e engenharia. Engenheiras mulheres configuram um desafio ainda maior”, respondeu a empresa.
A Z1 tem dores semelhantes. Por lá, além do desafio de preencher vagas mais sêniores “em áreas como mobile e dados”, os recrutadores lidam também com “a dificuldade que pessoas de diferentes contextos encontram para acessar formação e mercado de trabalho nessa área”.
Benefícios e cultura
Quase todas as empresas no Top Startups 2022 relataram dificuldade de competir com os altos salários em dólar e euro que empresas de fora do Brasil conseguem oferecer, tirando proveito da desvalorização do real nos últimos anos. Sem poder competir nos números, as startups brasileiras apostam em benefícios e cultura.
A Pier Seguradora, por exemplo, diz que seu “modelo de trabalho distribuído e assíncrono tem permitido atrair e reter excelentes profissionais”. Mas por lá, o desafio também tem sido encontrar profissionais de nível sênior e de liderança. A posição aberta há mais tempo (cerca de cinco meses) é a de Especialista em Segurança.
Na Pipo Saúde, o desafio tem sido “cruzar a experiência que buscamos com o perfil cultural e comportamental que melhor se adapta [à empresa]”. As vagas mais difíceis de serem preenchidas e que ficam abertas por mais tempo são as posições nível sênior e liderança (Pessoa Engenheira de Software, Tech Lead, Engineer Manager e Heads de diversas áreas).
“A globalização nas vagas tornou-se algo evidente e evoluímos para que possamos ser cada dia mais competitivos”, respondeu a Flash. “O cenário de benefícios, onde a Flash atua, se tornou um diferencial e utilizamos nosso conhecimento para nos tornarmos ainda mais atraentes para candidatos”. Por lá, as vagas mais disputadas também são de liderança: Tech Lead e Tech Manager.
Já no C6 Bank, as vagas mais desafiadoras são de engenharia de software, sobretudo para desenvolvedores com foco em iOS, disse a empresa. A fintech também diz que aposta em cultura e benefícios para atrair talentos.
Na Caju , que já perdeu pelo menos um profissional para competição estrangeira, vagas de DevOps, Mobile e Data Engineer “são as que trazem maior complexidade”. A vaga que ficou aberta mais tempo é a de Engenheiro de Dados. “Existe sim uma competitividade crescente de empresas no exterior, que remuneram em dólar ou outras moedas, o que já sentimos em candidatos finalistas que recusaram ofertas”, respondeu a startup.
Por fim, a Paylivre diz que vê mais dificuldade para preencher o cargo de Desenvolvedor Sênior. Apenas Azos não informou quais vagas são mais difíceis de preencher na área de tecnologia, nem comentou a escassez de profissionais e a competição com estrangeiras. “Felizmente, no último ano, conseguimos montar um time de tecnologia de excelência, estamos com um time bem alinhado e preparado para os próximos desafios”, respondeu a empresa.
Como resolver o problema
Para lidar com a escassez de profissionais qualificados, mesmo sem poder competir com os salários em dólar do exterior, e de quebra investir na diversidade das equipes, as startups brasileiras têm apostado nas “pratas da casa”.
Em todo o mercado, cresce o investimento na formação de novos desenvolvedores, especialmente entre jovens, minorias e pessoas em condição de vulnerabilidade social. Mas há também espaço para projetos de transição de carreira e na especialização de profissionais já contratados, como forma de reter talentos não-iniciantes.
É o caso da Alice. Em posições de nível júnior, a startup diz que dá preferência a profissionais vindos de outras áreas, estudantes e até pessoas com pouca ou nenhuma experiência prévia. A aposta é de que, no futuro, essas mesmas pessoas poderão preencher a alta demanda por posições de liderança dentro da empresa.
A Paylivre tem uma postura semelhante. A fintech recentemente concluiu o DevStart, um programa feito em parceria com a edtech Be Academy, que formou 100 desenvolvedores gratuitamente. Agora, há um processo seletivo para contratar e continuar a formação de alguns desses alunos.
O C6 Bank também tem programas de formação, chamados pela empresa de “Tech Up”, que ensinam programação voltada a dispositivos móveis, especialmente para a plataforma iOS, da Apple. A financeira oferece até cursos voltados exclusivamente para pessoas com deficiência.
Já a Neon criou em 2021 o programa Acelera, que, em parceria com as escolas Toti Diversidade e Resília, ofereceu cursos gratuitos de tecnologia para 50 refugiados e pessoas em condição de vulnerabilidade social.
A Buser Brasil oferece um programa semelhante, mas em parceria com outra edtech, a Descomplica. O Buser Tech selecionou no início do ano 50 alunos para um estágio na startup de mobilidade, com bolsa auxílio mensal de R$ 3.000, além de cursos oferecidos pela Descomplica Faculdade Digital.
Quando não podem promover cursos próprios, algumas startups apoiam projetos sociais. É o caso do Programadores do Amanhã, que ensina tecnologia a jovens negros da escola pública, e que teve alunos contratados pela insurtech Pier Seguradora.
O empenho vai além da lista LinkedIn Top Startups 2022. A Buser, junto com outras 19 empresas, lideradas por iFood e XP Inc., lançaram em julho o Movimento Tech, uma iniciativa que promete investir R$ 100 milhões na capacitação de jovens na área de tecnologia até 2025.
Para alguns, porém, só o investimento privado não é suficiente. Para Sergio Paulo Gallindo, presidente da Brasscom, a solução para a escassez de profissionais de tecnologia no Brasil depende tanto de investimentos públicos quanto privados.
“Na base, é uma questão pública. Não vamos sair desse imbróglio sem termos uma educação que permita e incentive o jovem [a entrar] na área da tecnologia e não se evada”, diz Gallindo, em entrevista ao LinkedIn Notícias. “Mas a gente só não colapsou [durante a pandemia] porque o mercado se articulou e de alguma maneira formou talentos.”
Apuração e texto: Lucas Carvalho
Edição: Fabio Manzano
Pessoas e Cultura | D&I
1yZ1 💖
Marketing Lead | Product Marketing | Web3 | Project Manager | LATAM
1yCada vez mais tenho visto colegas de tecnologia aceitando propostas para empresas gringas. Realmente um desafio pras startups BR competir com o salário X escopo.
Journalist | Tech & Innovation Editor at LinkedIn News
1yA lista final você confere aqui: https://www.linkedin.com/pulse/linkedin-top-startups-2022-15-empresas-em-alta-brasil-/